Literatura como armadilha

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“Agora que meu filho está brincando no seu quarto e que estou escrevendo no meu, me pergunto se o ato de escrever não será a prolongação das brincadeiras da infância. Vejo que tanto eu como ele estamos concentrados no que fazemos e levamos nossas ações muito a sério, como acontece frequentemente com as brincadeiras. Não admitimos interferências e mandamos os intrusos embora imediatamente. Meu filho brinca com seus soldados, seus carros e suas torres, e eu brinco com as palavras. Ambos, com os meios de que dispomos, ocupamos nosso tempo e vivemos em um mundo imaginário, mas construído com utensílios ou fragmentos do mundo real. A diferença é que o mundo das brincadeiras infantis desaparece quando terminamos de brincar, enquanto o mundo das brincadeiras literárias do adulto, para o bem e para o mal, permanece.”

– Julio Ramón Ribeyro em Prosas apátridas

 

“Estou nessa armadilha, no romance”, diz um dos narradores de Formas de voltar para casa, quinto livro de Alejandro Zambra. A afirmação, curiosamente proferida por um personagem romancista, parece revelar uma das mais promissoras chaves de leitura de toda a obra do autor chileno e, em especial, de seu mais recente trabalho publicado no Brasil, Múltipla escolha.

Baseado na Prova de Aptidão Verbal que compõe a Prova de Aptidão Acadêmica, aplicada de 1966 a 2002 no Chile e equivalente ao antigo vestibular no Brasil, o livro se divide em cinco partes que simulam exercícios de interpretação textual e que nos chamam para uma espécie de jogo de adivinhação em que certo e errado ocupam a mesma região difusa. Levando o lúdico às últimas consequências, Zambra rompe as barreiras entre os gêneros literários e faz de Múltipla escolha uma engenhosa máquina que necessariamente depende do leitor para funcionar. Abrimos o livro, as engrenagens começam o seu trabalho.

Ao mesmo tempo, porém, em que damos sentido à lógica de funcionamento do texto, somos obrigados a assumir uma postura. Usando o tradicional imperativo, os enunciados das questões são muito claros em seus comandos: esperam de nós, como o título em português destaca, uma escolha, uma seleção, uma definição. Colocam-nos, assim, em uma posição por vezes embaraçosa, meio desconfortável, já que deixam evidente o lugar de atividade e interferência destinado ao leitor. Arquitetando seu livro como uma teia de possibilidades, Alejandro Zambra provoca em nós deslocamentos que exigem constantes readaptações, de modo que, quando nos damos conta, caímos em uma… ardilosa arapuca.

A leitura de Múltipla escolha parece, então, apagar o romance e fazer da literatura apenas armadilha. Mas perguntamos: e que armadilha é essa? Uma consulta rápida ao dicionário permite-nos defini-la como um “artifício traiçoeiro de que alguém se serve para enganar outrem”. A atenção, em um primeiro momento, parece recair sobre o verbo “enganar”: de fato, o livro de Zambra nos leva pelas duas veredas da palavra, tanto a do erro, do equívoco, quanto a da confusão, da incerteza. Como, por exemplo, escolher qual das palavras a seguir não tem relação nem com o enunciado “Educar” nem com os demais itens: (a) ensinar; (b) mostrar; (c) treinar; (d) domesticar; (e) programar? Em Múltipla escolha, os caminhos do engano são fundamentais como base de sustentação do livro, pois fazem dele não apenas uma brincadeira desinteressada, mas sim um exercício – às vezes bem humorado, às vezes muito sério – de dura reflexão crítica.

Entretanto, quando lemos o livro uma segunda (terceira, quarta) vez, notamos que o maior problema está, na verdade, em definir quem é o “alguém” que engana e quem é o “outrem” enganado. Ao explicitamente fazer do leitor autor, Alejandro Zambra só nos deixa a opção de bater “Palmas para o escritor, por sua engenhosidade. Batam palmas, como esse tipo de gente deve receber palmas. Batam palmas na cara dele, com as duas mãos, até que seja impossível distinguir de onde está saindo o sangue” (p. 57). E a impressão que fica de Múltipla escolha é esta: de fusão entre artista e espectador, que, ao fim e ao cabo, não são lá muito diferentes.

Essa ideia de literatura como armadilha não é, contudo, nova na obra de Alejandro Zambra. Já havia sido timidamente introduzida em Bonsai e A vida privada das árvores e desenvolvida com maestria no extraordinário romance Formas de voltar para casa e nos preciosos contos de Meus documentos. É em Múltipla escolha, porém, que o autor chileno leva ao limite aquilo que desde os primeiros livros parece estar entre as suas preocupações: o funcionamento da ficção; os ardis da linguagem; a metaliteratura. O resultado é uma obra de rara criatividade, reflexo singular de alguns sintomas da produção literária contemporânea.

Passando por temas já conhecidos de seu trabalho como a memória, as relações familiares e a ditadura chilena, Zambra, com agridoce ironia, atravessa Múltipla escolha para terminá-lo da maneira mais provocativa que poderia: com um gabarito. E o livro se encerra olhando-nos desdenhosamente e perguntando “E aí? Agiu conforme as regras? E a resposta, qual é?”. Não há. O que há é ilusão. É o que nos resta a dizer.

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