Enclausurado (Ian McEwan)

enclausurado

Em novo romance, McEwan inova na proposta narrativa, mas não a explora em todo o seu potencial.

Lançado no Brasil no final do ano passado, o último romance de Ian McEwan, Enclausurado, chama a atenção do público e da crítica pelo seu narrador, no mínimo, inusitado: um feto. Preso aos limites do útero, o protagonista acessa a realidade externa por meio da audição, tomando parte, através do rádio e dos podcasts que a mãe constantemente escuta, de questões que vão desde a crise político-ambiental até a problemática dos refugiados na Europa. E tudo isso parece perturbá-lo. Extrapolando as fronteiras do plausível, o feto de McEwan é um erudito: um intelectual atormentado de fina ironia, apreciador de vinho e entusiasta do Ulisses.

Entretanto, nos últimos dias, o que vem para angustiar o narrador se restringe ao núcleo familiar do qual ele faz parte. Em uma posição quase que de observador intruso, o protagonista percebe que uma tensão se estabelece entre os três principais personagens que transitam pelo enredo do romance: sua mãe, Trudy, uma mulher enfadada com o casamento em crise; seu pai, John Cairncross, poeta e editor revestido de ares românticos; e seu tio, Claude, um sujeito tacanho e um tanto palerma. A partir do que ouve dos diálogos entrecortados, o narrador nota que “intenções letais” vão se delineando. Claude e Trudy, que são amantes, armam um complô para assassinar o pai do protagonista.

Dessa forma, nota-se que apenas a delineação da trama já nos vai direcionando para o diálogo intertextual que se estabelece entre o romance de McEwan e Hamlet; diálogo esse que se deixa anunciar logo na epígrafe: “Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito – não fosse pelos meus sonhos ruins”, diz o protagonista shakespeariano na segunda cena do ato II. Mas a intertextualidade vai muito além do enredo e dos nomes dados ao tio traiçoeiro e à mãe adúltera. Ela pode ser percebida em irônicos detalhes diluídos no romance (como o apelido dado por Claude a Trudy, “Minha ratinha”, que faz referência ao assassinato de Polônio) e, mais claramente, na personalidade atormentada do narrador de McEwan. Como Hamlet, o protagonista de Enclausurado vê-se constantemente angustiado pelo “espinhoso dom da consciência”, porém, ao contrário do personagem de Shakespeare, o feto é refém de sua própria impotência, não sendo capaz de impedir que o crime seja cometido ou mesmo de vingar o pai, o que, em certa medida, o coloca em uma posição de cúmplice em relação ao assassinato de John Cairncross. E a maneira como ele lida com isso é o grande trunfo do romance.

Penso que a mais relevante questão com a qual a crítica se defronta nesse novo trabalho de Ian McEwan é, de fato, a posição ocupada pelo narrador, a qual, a meu ver, poderia ter tido implicações consideráveis principalmente em dois aspectos constituintes da obra e de seu lugar na tradição literária inglesa: (1) a organização da trama e (2) o processo de inovação estética.

Podemos dizer, quanto ao primeiro, que não é tão bem desenvolvido. Com ares de romance policial, o enredo de Enclausurado segue uma estrutura já bastante conhecida pelos leitores do gênero, apostando em personagens com poucas nuances psicológicas, cliffhangers no final dos capítulos e um final bastante previsível. A posição quase voyeurística do narrador dentro do útero da assassina permitia a McEwan constituir a trama por meio de uma organização muito mais intrincada, em que os fatos poderiam ir se revelando para nós de modo mais gradual e oblíquo; no entanto, o autor mostra-se apressado no desenvolvimento do enredo e acaba não aproveitando tão bem a mina de ouro narrativa que tinha nas mãos.

Em relação ao segundo ponto, acredito que Ian McEwan não se arriscou o suficiente. Ter um feto como narrador permitia ao autor de Reparação explorar, nesse novo trabalho, as potencialidades narrativas do corpo, mobilizando o texto em função do modo como os sentidos atuam na percepção e dando contornos vanguardistas ao romance. Entretanto, McEwan se mostra conservador. Não fazendo o devido jus à criativa tradição narrativa inglesa (citemos apenas os nomes de Laurence Sterne e Virginia Woolf), o autor apenas passa timidamente por essa proposta em alguns momentos – altos – do romance, mas acaba por se limitar a uma transposição moderna do Hamlet shakespeariano e chega quase a deixar o romance insosso para aqueles que não conhecem a tragédia.

Ora, mas dissemos que há um trunfo em Enclausurado: onde está ele então? Ironicamente, no intervalo entre essas duas possibilidades de profícuo desenvolvimento da posição do narrador. Apesar de acabar tornando duvidosa a qualidade da trama policial e não abrir espaço para um aproveitamento da sensibilidade corpórea do feto, o excesso de consciência que McEwan dá ao narrador cria no romance um tom farsesco que prende o leitor pela sofisticação do humor. Aliada à já conhecida boa escrita de Ian McEwan, a narração de Enclausurado vem permeada por um tom quase de deboche.

Ciente não somente das tensões em disputa dentro do ambiente familiar, mas também de toda a atual crise do contexto geopolítico, o narrador, em densas digressões, lança seu olhar irônico sobre os mais variados assuntos, e é com essa fina ironia que ele lida com a angústia de um saber excessivo e impotente – algo perfeitamente natural não fosse o narrador um feto. Assim, o romance ganha uma tonalidade fantástica, levando-nos a questionar qual o grau de verossimilhança que podemos esperar de uma obra como essa: devemos nos apegar a ferro e fogo a leituras realistas quando o próprio ponto de partida já beira o absurdo?

O que observamos, então, em Enclausurado, é um escritor que, já com pleno domínio de sua escrita e de seu estilo, aposta em um projeto narrativo diferente, porém não todas as fichas. Ian McEwan investe em um ponto de vista inusitado, mas, receoso, não leva essa ideia ao seu limite e priva-se de dissecar toda sua força literária, recheando com humor onde falta em ousadia. Apesar de irregular, o romance vale pelas gargalhadas e pela polêmica de uma boa discussão.

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