O tribunal da quinta-feira (Michel Laub)

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I.

José Victor. 43 anos. Publicitário. Doenças que passaram por seu corpo: icterícia, gripes de infância, sarampo, operação de adenoides, sinusite, alergia a pólen, uma catapora tardia. Melhor amigo: Walter, também publicitário, homossexual, soropositivo. Namoradas: Alice, Adriana, Giovana, Carolina, Ana Paula, Simone. Futura ex-esposa: Tereza, arquiteta, apelido Teca. Futura possível namorada: Dani, estagiária, 20 anos mais nova que ele. Estamos em 2016. Nesse tribunal, ele é réu. Mas também juiz e promotor. Todos somos, afinal.

II.

Narrado em primeira pessoa, o novo romance de Michel Laub, O tribunal da quinta-feira, gira em torno do drama pessoal pelo qual passa José Victor, que, pouco depois de encerrar um casamento de quatro anos, tem seu e-mail invadido pela ex-mulher, Teca. Assustada com o que encontra nas conversas entre o narrador e seu melhor amigo (Walter), a arquiteta, movida por um misto de indignação e desejo de vingança – já que, com a leitura dos e-mails, descobre que foi traída –, seleciona e divulga partes dos conteúdos desses diálogos, que se desenvolvem sobre uma linguagem particular, “sendo impossível a qualquer um de fora entender o contexto em que aquelas expressões foram usadas”.

A partir daí, o protagonista e seu amigo, que compuseram uma intimidade fundada em uma espécie de humor próprio (autoirônico e grosseiro) – que, a princípio, funcionava como uma maneira de Walter lidar com a sua condição de soropositivo –, têm agora que encarar um tribunal virtual, que, apesar de seus “princípios nobres”, acaba estabelecendo um juízo precipitado e muito definitivo a respeito dos dois.

Embora tenha como um dos grandes méritos a pertinência dos temas que suscita, O tribunal da quinta-feira parece concentrar suas qualidades não apenas nessas problemáticas conflitantes da AIDS e dos linchamentos virtuais, mas também, e principalmente, na linguagem mobilizada para desenvolver essas questões. José Victor está ciente do seu lugar em meio ao tribunal: ele se mostra capaz de distinguir, embora não de modo fixo, os réus, a acusação, os juízes, o público. Ele tem consciência, portanto, da natureza do enunciatário com quem ele interage, o qual é determinante nas suas escolhas discursivas. Assim, para defender-se das denúncias violentas que sofre, José Victor precisa ser claro, objetivo e direto em seu relato, características que se distanciam daquilo que particulariza a linguagem literária. E o desafio de Michel Laub está justamente em conciliar essas duas formas de expressão – e podemos dizer que o autor é bem-sucedido em sua missão.

Laub consegue criar um narrador que não se priva de relatar o que pode haver de mais áspero e cru na sua história e que não se vale, em momento algum, de uma autopiedade barata: na verdade, José Victor, em muitos momentos, constitui-se seu mais severo juiz. Contudo, apesar do efeito de honestidade criado pelo texto, a narrativa fragmentada, em que tempo e espaço não se conciliam de modo cronológico e imperativo, dá vazão às ambivalências do romance, que é permeado por uma ironia que beira o sarcasmo e por críticas muito contundentes construídas a partir do conflito de identidades.

Esses conflitos resultam, principalmente, daquilo que poderíamos chamar, para usar palavras do livro, de “moralismo punitivo”, o qual, por sua vez, é consequência do que o escritor norte-americano Philip Roth define, em A marca humana, como “o êxtase da santimônia”. O que Roth percebeu no seu romance – que se situa logo após o escândalo sexual envolvendo o ex-presidente estadounidense Bill Clinton e sua secretária, Monica Lewinsky – foi uma movimentação reacionária muito forte criada por “moralistas espalhafatosos de plantão, loucos para acusar, deplorar e punir”. E Michel Laub capta o mesmo.

Os dois autores parecem divergir apenas em função de uma diferença geracional: o escritor brasileiro mostra, em O tribunal da quinta-feira, como o universo da internet ampliou esse espaço de patrulha, dando voz não somente para esse grupo mais conservador, mas também para aqueles que, mesmo lutando por causas justas, podem acabar assumindo uma postura recriminadora. A despeito das razões de cada nicho, a crítica de Michel Laub cai sobre os discursos prontos, os clichês alienados e alienantes e os posicionamentos detratores.

Em certo sentido, Roth e Laub assemelham-se, ainda, na maneira como colocam em embate o público e o privado, o coletivo e o individual. O tribunal acadêmico que Coleman Silk tem que enfrentar em A marca humana tem como pano de fundo um escândalo presidencial, como já apontei; assim, o conflito pessoal pelo qual passa o protagonista do romance de Philip Roth, de certa maneira, sofre as contingências do fenômeno social. Em O tribunal da quinta-feira, a inquietação pela qual passam os personagens em relação à soropositividade também sofre as pressões históricas do fantasma da AIDS, que assolou e assustou a geração que cresceu nas duas últimas décadas do século XX. As problemáticas coletivas não são, portanto, ignoradas por nenhum dos dois autores; pelo contrário, ambos consideram seu peso nas determinações individuais e os conflitos que essa tensão entre o público e o privado pode criar.

O que notamos, então, é que Michel Laub toca em questões particularmente delicadas, e, quando falo delicadas, quero dizer em todos os sentidos. As temáticas tratadas no romance, se nas mãos de um escritor incompetente, poderiam gerar um resultado desastroso, com construções forçadas e clichês constrangedores. Felizmente, não é o que acontece. Laub mostra seu domínio brutal do funcionamento da ficção e demonstra sua habilidade para desenvolver rigorosamente seu estilo em cima de temas pungentes. Assim, O tribunal da quinta-feira pode não soar agradável para muitos e, até mesmo, causar certo mal-estar. Mas não é essa, afinal, a função da literatura?

“Nem sempre é fácil traduzir sentimentos nos limites estreitos da linguagem, a abstração representada por palavras vazias como perplexidade e angústia, e por mais que você diga a si mesmo que não quer cumprir este papel é impossível não se flagrar pensando sobre comportamento, porque é inevitável atribuir sentido moral a qualquer ato humano que não seja abrir os olhos pela manhã” (p. 146).

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