Meia-noite e vinte (Daniel Galera)

meia-noite-e-vinte

“O nosso mundo, eu começava a suspeitar, não estava acabando nem avançando. Estava em estase. Era bem possível que ficasse estagnado, preso na condição de estar morrendo para sempre. Quando eu pensava nisso, a raiva, o medo e a ansiedade que me impeliam à ação ou à fuga às vezes cediam lugar a uma passividade que não deixava de ser agradável, se comparada com o resto” (p. 155).

É comum o conceito de realismo ser equivocadamente associado somente a um período da história da Arte e da Literatura, sendo muitas vezes interpretado como uma definição estanque que se limita à “imitação objetiva da realidade social”. Entretanto, se lançarmos um olhar ampliador sobre a ideia de arte mimética – seguindo, a princípio, os direcionamentos apontados por Aristóteles na Poética –, logo notaremos que toda obra literária é, em alguma medida, realista. Explico: desrealizando o real em diferentes graus, o objeto artístico representa uma determinada realidade reinventando-a. Como muito bem pontua o crítico inglês Harold Osborne em seu livro Estética e Teoria da Arte: “Embora conserve o caráter naturalista do espelho através do qual a atenção do contemplante se fixa no objeto representado, a obra de arte pode, não obstante, ser um espelho deformante ou um projetor idealizador” (p. 73).

Assim, ainda que o espelho da arte que reflete a imagem da realidade seja deformante ou não, ele é um espelho, não a própria realidade, isto é, a representa na medida em que a recria, reelaborando-a a partir dos diferentes olhares que lança sobre ela. E é, então, nessa dinâmica elástica de torções e recriações da realidade contemporânea que parece se fundar Meia-noite e vinte, novo romance do escritor brasileiro Daniel Galera.

Narrado por três diferentes personagens em capítulos alternados, o romance tem como motor narrativo a morte precoce do escritor Andrei Dukelsky, o Duque. Com o assassinato do jovem autor, três antigos amigos de Duque, depois de quase duas décadas afastados, se reaproximam: Aurora, uma bióloga e pesquisadora prestes a terminar o doutorado; Emiliano, um jornalista frustrado e com uma dura tarefa pela frente; e Antero, um publicitário um tanto deslocado. No final dos anos 1990, os três, junto com Andrei, editaram um zine virtual de certo sucesso, o Orangotango, e, agora, confrontam a morte do amigo e os dilemas da sua geração.

Constituindo-se, então, uma espécie de balanço geracional, Meia-noite e vinte se desenvolve em torno das mais ásperas questões dessa “geração que pegou o início da revolução da internet, antes do politicamente correto, da profissionalização da rede” (p. 57), a qual tem que lidar com o peso de promessas não cumpridas e expectativas frustradas. Assim, o objetivo desse trabalho de Galera está menos centrado em uma inovação em termos de linguagem – em que se mostra tradicional – do que em uma reconstituição e uma assimilação de um período que vai de meados da década de 90 até o ano de 2014 que procura retratar; assimilação que, curiosamente, em vez de fechar os espaços com resoluções que se querem definitivas, opta por deixá-los abertos para questionamentos. E é aqui onde está o mérito do romance.

Ao estabelecer a multiplicidade de vozes como base para o desenvolvimento de Meia-noite e vinte, Daniel Galera consegue retratar (ou recriar) uma realidade sem afirmá-la categoricamente. Trabalhando com a subjetividade dos personagens, que permite ao autor constituir um diálogo entre os conflitos particulares de Aurora, Emiliano e Antero e os problemas específicos de seu tempo, Galera é bem-sucedido ao, nas entrelinhas, evidenciar a relatividade da própria realidade, a qual vai se construindo gradativamente em função da percepção que cada um dos três protagonistas tem dos fatos do passado e do presente.

Essa opção polifônica é o que dá ao autor a possibilidade de explorar de modo convincente a diversidade de temas presentes no livro, os quais convergem para o êxito da obra. Mostrando-se competente para criar associações e confrontações entre problemáticas que aparentemente não se relacionam, Daniel Galera faz um passeio nebuloso por questões profundamente atuais, passando pela violência urbana, o aborto, o antipetismo, as manifestações populares, a estética da pornografia virtual, os impactos da internet, a poluição do meio ambiente, a homossexualidade, o machismo etc. etc.

Fixando espaço-temporalmente o livro com referências diretas a lugares, marcas, sites e produtos, o autor de Barba ensopada de sangue mostra, ainda, sua coragem para, nesse novo trabalho, não se fechar em tópicos relacionados unicamente à forma literária ou a problemas somente ligados à individualidade do sujeito – como muito podemos ver em grande parte da produção contemporânea –, mas sim colocar em xeque temáticas do Brasil e do mundo de hoje, sem a pretensão de resolvê-las em definitivo, como já apontei.

Por fim, Galera parece querer mostrar que, apesar das frustrações de uma geração que não conseguiu realizar muitos dos seus desejos, há ainda uma réstia de esperança que teima em resistir, um “tipo de energia” que, enquanto “seguisse brotando em alguns de nós, mesmo que à nossa revelia” (p. 196), faria nosso mundo continuar a persistir. Assim, por mais que, quase sem perceber, já estejamos há vinte minutos no século XXI, no fim do mundo anunciado pelas profecias apocalípticas, no tarde demais, também já estamos há vinte minutos em um novo tempo, com novas promessas, demandas e sonhos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s