A filha perdida (Elena Ferrante)

a-filha-perdida

“Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim”
(Ivan Lins, Aos nossos filhos)

Com o sucesso de crítica e público dos dois primeiros volumes da tetralogia napolitana, A amiga genial e A história do novo sobrenome, a escritora italiana Elena Ferrante já parecia ter constituído seu nicho de leitores brasileiros, todos esperando avidamente a tradução e publicação dos demais tomos da série. Somou-se, ainda, à popularidade e à qualidade literária do trabalho de Ferrante a polêmica em torno da possível descoberta da verdadeira identidade da misteriosa autora, a qual, segundo investigações da revista The New York Review of Books, seria Anita Raja, tradutora da obra de Franz Kafka para o italiano. É nesse contexto, então, de frenesi em torno do trabalho da escritora que chega ao Brasil A filha perdida, terceiro romance de Elena Ferrante.

Publicado originalmente em 2006, o livro tem seu enredo centrado em Leda, uma professora universitária de meia-idade, que, aliviada com a mudança para o Canadá de suas duas filhas já crescidas, Bianca e Marta, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Lá, a personagem cria uma tranquila rotina dividida entre a praia e as leituras acadêmicas; contudo, não demora muito para que a mulher volte sua atenção para uma barulhenta família de napolitanos, concentrando-se em especial em Nina, uma jovem mãe aparentemente plena e satisfeita, e sua filha, Elena. A partir daí, a protagonista criará uma relação obsessiva com essas personagens, projetando nelas uma forte carga emocional, que desencadeia uma torrente de lembranças e reflexões a respeito da própria vida de Leda.

Embora curto e com uma trama simples, A filha perdida mostra-se capaz de suscitar uma série de questões problemáticas por meio de uma construção intrincada de teias de sentido. Aqui, podemos notar a competência de Elena Ferrante para, fugindo dos lugares-comuns, compor a arquitetura psicológica dos seus personagens, fazendo-o por meio de uma escrita que, ao mesmo tempo que impacta, é sutil. E é essa “sutileza brusca” que precisamos tentar esclarecer.

Tenho visto muitos leitores associarem esse aspecto mais desconcertante de A filha perdida ao “excesso de honestidade” da escrita de Elena Ferrante. No entanto, a meu ver, se pararmos para pensar com um pouco mais de cautela a respeito dessa impressão de honestidade, notaremos que ela se mostra um tanto quanto controversa. Por várias razões. Em primeiro lugar, porque a narrativa é construída a partir do ponto de vista da protagonista, Leda, a qual está mergulhada dentro da trama e, portanto, não pode ser digna de plena confiança. Em segundo, porque, quando vamos penetrando o enredo e conhecendo melhor os personagens, notamos que essa narradora é emocionalmente instável, fato que parece atestar o primeiro ponto destacado. Em terceiro, porque, quando observamos o comportamento de Leda em convivência com outros caracteres da história, podemos muito bem perceber ela jogando com as categorias do ser e do parecer, de modo que a personagem nem sempre age em conformidade com as suas crenças.

Assim, penso que esse impacto causado pelo texto da autora de Dias de abandono está, na verdade, diretamente relacionado a opções estilísticas. Ao priorizar os períodos curtos e com poucas inversões, Elena Ferrante não dá brechas para que o seu leitor vire a cara enquanto ela fala com ele. Dessa maneira, parece haver menos excesso de honestidade no texto da escritora italiana do que uma impressão de verdade criada a partir de um modo muito direto de dizer as coisas – as quais, em geral, estão revestidas por uma carga semântica de aspereza.

Com isso, não quero dizer que seja absolutamente equivocado falar em honestidade na escrita de Ferrante: há, de fato, uma dose considerável dela, mas não excessiva. Ao tratar sem adornos escandalosos de questões já tão estigmatizadas ao longo da história da sociedade ocidental – todas, em geral, ligadas à figura feminina –, Elena Ferrante mostra que a sua preferência por uma maior objetividade no plano da expressão tem um propósito muito claro quando relacionado à dimensão do conteúdo: a autora busca não romantizar temas que, ainda hoje, estão cercados por uma aura ingênua e idealista, como, por exemplo, a maternidade.

Percebemos, então, que o caráter mais brusco (sincero, honesto, como queiram) de Ferrante não se adéqua a um excesso ou a uma falta, mas sim a uma justeza, e não pode ser defendido do ponto de vista da engenharia narrativa, mas sim do tratamento estilístico de problemáticas consideradas como tabus.

Entretanto, ao mesmo tempo que somos golpeados pela escritora italiana, notamos uma sutileza que reveste com uma falsa camada de abrandamento todas as tensões em conflito no romance. Em meu entendimento, isso se dá em função de não-ditos e entreditos que se deixam transparecer com as atitudes tomadas pelos personagens. Assim, a construção das relações interpessoais, grande forte da obra como um todo de Elena Ferrante, é o que faz pulsar o texto, já que é a partir dela que temos acesso aos traumas, às projeções e às perturbações dos sujeitos ali em embate. Ou seja, a realidade psicológica dos personagens não se manifesta diretamente, mas é manifestada através de suas ações. Um exemplo disso é quando Leda, lembrando-se irritada do relacionamento entre suas filhas e Lucilla, dirige “sem evitar as poças de chuva”, passando “em cima delas de propósito, levantando longas asas de água”. (O roubo e a manutenção com Leda da figura simbólica da boneca talvez seja o que há de mais representativo no romance em relação a isso).

Alia-se, ainda, a esse desenvolvimento psicológico dos personagens e a esse tratamento particular do discurso a boa amarração de enredo. Construindo seu romance com capítulos curtos, que dão maior agilidade à leitura, Elena Ferrante mostra sua competência para, com profundidade e propriedade, contar uma boa história, a qual nos prende em uma trama nebulosa que não chega a se esclarecer plenamente com o fim do romance.

Dessa maneira, a autora já demonstra em A filha perdida aquilo que viria a desenvolver com maestria na tetralogia napolitana, confirmando a sua capacidade para aliar problemas de ordem social, psicológica e filosófica a um enredo se não agradável, ao menos instigante, que marca o leitor “a frio, ferro e fogo em carne viva”. Seguindo um raciocínio paradigmático: estudante, aquele ou aquilo que estuda; amante, aquele ou aquilo que ama; vivente, aquele ou aquilo que vive; Ferrante… Parece fazer sentido.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s