No mar (Toine Heijmans)

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Certamente não sou a pessoa mais qualificada para falar da literatura contemporânea. Tenho, porém, tentado me manter o mais atualizado possível no que tange às recentes publicações e, nessas minhas veredas pelas obras do nosso tempo, tenho notado algumas tendências que parecem lançar uma vaga luz sobre um dos possíveis entendimentos que futuramente teremos a respeito da literatura produzida hoje. Dentre elas, uma das mais evidentes parece ser a dissolução do enredo, o qual é colocado em segundo plano em virtude de uma maior preocupação com a sofisticação do tratamento estético. É importante destacar, contudo, que esse direcionamento literário não é exclusivo do século XXI, mas sim resultado de um processo que provavelmente tem sua maior expressividade em Ulisses, de James Joyce. Exemplos mais discretos e temporalmente mais próximos de nós seriam Noturno indiano, de Antonio Tabucchi, e Bonsai, de Alejandro Zambra. E, apesar de radicalmente diferente desses dois autores, o holandês Toine Heijmans, com o romance No mar, parece, à sua maneira, seguir por esse caminho.

A bordo do veleiro Ishmael (nome dado em homenagem ao protagonista de Moby Dick), Donald, personagem central do livro de Heijmans, após navegar sozinho por três meses pelo Mar do Norte, decide percorrer a fase final de seu trajeto em companhia da filha de sete anos, Maria. Saem de Thyborøn, na Dinarmaca, em direção a Harlingen, na Holanda, travessia que, estima-se, deve durar 48 horas. Não são esperados sobressaltos na viagem, apenas um passeio tranquilo, uma aventura de pai e filha. Contudo, durante uma tempestade, ao checar a cabine onde Maria dorme, Donald não a encontra.

Com essa modesta história, Toine Heijmans estreia na literatura e impressiona pelo domínio que demonstra ter da engenharia narrativa. Valendo-se de determinados mecanismos, o autor consegue abordar de maneira muito curiosa a trama que se propõe a desenvolver, tocando em questões bastante particulares como a paternidade, a loucura e o isolamento.

Inicialmente narrado em primeira pessoa, No mar tem em torno dos seus vinte primeiros capítulos centrados no ponto de vista de Donald, opção narrativa que parece criar um efeito de sentido de aproximação, que nos puxa para dentro do pequeno veleiro Ishmael e nos leva a experienciar as circunstâncias da viagem quase que do mesmo modo que o protagonista do romance. Estamos enclausurados em um espaço fechado, marcado pela forte presença de períodos curtos, sendo as únicas saídas a imensidão marítima ou a mente conturbada de Donald, que se divide entre o alarmante mau tempo, a profusão de memórias e o desaparecimento misterioso da filha.

Nesse jogo com as lembranças do personagem principal, Heijmans brinca com a relação entre a concomitância e a não-concomitância do tempo, alternando diferentes momentos da história e conseguindo criar uma maior tensão no enredo, uma vez que tonifica o estatuto narrativo do segredo que sustenta a trama. Ao construir essa lógica temporal, o autor mostra a sua competência para dar dinamicidade ao romance, uma vez que o leitor fica preso às páginas do livro, desesperado – no sentido mesmo de ser “aquele que já não pode esperar” – para que o mistério seja, enfim, resolvido.

Na segunda parte do livro, o foco narrativo é alterado e o texto, agora em terceira pessoa, ganha maior objetividade, permitindo-nos ver o que ocorre na obra com um pouco mais de nitidez. É como se, diante de uma tela, déssemos dois ou três passos para trás a fim de vê-la com maior clareza. Nesse ponto, voltamo-nos para a personagem de Hagar, esposa de Donald, que espera pelo retorno do marido. E é nesse momento que tomamos conta do que acontece com o protagonista do romance.

Ao que parece, Donald está saturado da rotina programática, sendo a vida em terra firme um sinônimo da realidade corporativa, onde não há lugar para riscos. Assim, ele parte para o mar, sujeito com o qual terá de constantemente se ajustar, já que, segundo o personagem, “temos que respeitar as regras do mar, das nuvens, das montanhas”. Nessa busca pela liberdade, o protagonista esbarra no rígido cotidiano do isolamento marítimo, o qual parece ser o evento deflagrador para a acentuação do processo de desorientação mental de Donald.

Dessa forma, Toine Heijmans fascina menos pelo enredo simples – e, em certos momentos, até previsível – que pelo habilidoso tratamento que a ele dá. Ao se valer muito bem de mecanismos específicos da criação literária, o autor  consegue desenvolver de modo muito particular temas tão perturbadoramente humanos, dando a eles uma tonalidade sombria e trágica. Demonstrando, assim, seu domínio amplo do funcionamento da ficção, Heijmans constrói No mar sob as bases sólidas de uma boa composição narrativa, levando-nos a guardar o livro na estante com a certeza de que a ele retornaremos.

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