Pé do ouvido (Alice Sant’Anna)

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Ana Cristina Cesar, em seu poema “vigília II”, escreve: “As paisagens cansei-me das paisagens/ cegá-las com palavras rasurá-las”. Os dois primeiros versos desse belíssimo texto da poeta carioca parecem dizer muito a respeito do mais novo trabalho de Alice Sant’Anna, Pé do ouvido. Nele, a jovem autora mostra um novo lado da sua produção, se valendo da palavra para rasurar imagens no olhar do seu leitor, que é quase cegado pelo entrecruzamento de pensamentos que se sobrepõem.

Dividido em duas partes, o terceiro livro de Alice Sant’Anna constitui-se, a meu ver, um longo poema de passagem. Assim como fez em seu último trabalho, Rabo de baleia, a escritora utiliza a figura da viagem na tentativa de dar uma configuração poética à eterna continuidade das coisas, em que tudo é transitório; no entanto, agora o faz com muito mais maturidade enquanto poeta. O estilo agridoce, em que a base áspera se camufla sob uma falsa camada de delicadeza, já se anunciara na publicação de 2013, mas ganha maior consistência em Pé do ouvido, onde podemos ver uma autora que parece ter um domínio mais claro da forma que explora.

Apesar de sabermos que, em se tratando de Arte, não existe inovação sem tradição, com esse amadurecimento, Alice Sant’Anna parece ganhar mais autonomia em relação à herança poética de que é devedora, que tem como maiores expoentes Ana C., Sylvia Plath e Anne Sexton. Com isso, não quero dizer que, nessa obra, a autora de Dobradura esteja fundando um estilo absolutamente original, que não mantém ligações com nada escrito antes. As comparações são inevitáveis. Na verdade, o que Sant’Anna faz é utilizar mecanismos como a intimidade cotidiana (clara desde o título), a construção fragmentada e a confissão de maneira distinta.

Enquanto Ana Cristina Cesar, por exemplo, se valia desses dispositivos poéticos para – fosse por meio da sedução, da tentação, da intimidação ou da provocação – mobilizar o outro (seu leitor) atirando-se a seus pés (“(…) – taí,/ eu fiz tudo pra você gostar”), Alice Sant’Anna parece se valer desses recursos de modo mais discreto, sussurrando ao pé do ouvido o agora que já passou.

Nessa busca por apreender o puro devir, o eu poético de Pé do ouvido esbarra nas limitações da linguagem, que recorta o real – experiência inapreensível – e, ao mesmo tempo, constitui-se única forma de acessá-lo. O longo poema parece seguir uma estrutura semelhante à do romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, em que o livro não espera pelo seu leitor, o qual é bruscamente atirado no contínuo do texto, que vem de um lugar desconhecido e para lá segue.

Vemos, em Pé do ouvido, uma luta corporal com a perda – do tempo, da vida, das palavras –, em que a amálgama de não-ditos abre para a incompreensão de muito do drama cotidiano, de modo que a riqueza do livro nasce dos silêncios por ele deixados. E qualquer barulho a mais pode acordar “o leão atrás da porta”.

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