Stoner (John Williams)

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Em geral, para que a atividade da crítica seja exercida da melhor maneira possível, é necessário certo distanciamento estético da obra em função de uma importante dose de objetividade e de prudência para a emissão de qualquer juízo de valor. É por essa razão que evito escrever sobre livros e autores com os quais mantenho uma relação muito visceral – Fernando Pessoa é um exemplo. Aqui e acolá, temos exceções. Stoner será uma delas.

Após ter sido esquecido pela crítica e pelo público por quase 50 anos, o terceiro romance de John Williams volta às livrarias com um novo fôlego. O resgate da obra se iniciou em 2006, com um texto do irlandês Colum McCann para o jornal The Guardian, e chegou ao leitor brasileiro em 2015, com tradução de Marcos Maffei, por meio da pequena editora Rádio Londres. Publicado nos Estados Unidos em 1965, o enredo do livro se concentra na vida banal – quase medíocre – de William Stoner.

Embora os adjetivos que venham acompanhando o enredo de Stoner sejam esses – simples, banal, medíocre, comum, corriqueiro, trivial etc. etc. –, não podemos usá-los da mesma maneira para qualificar o belo desenvolvimento estético que é dado a temas tão profundamente complexos e peculiares da natureza humana. Muitos aspectos me parecem centrais na discussão do romance; no entanto, me debruçarei com maior atenção somente sobre um ponto, o qual, a meu ver, tem sido pouco abordado pela infinidade de críticos e resenhistas que têm escrito sobre o trabalho de John Williams.

O que primeiro salta aos olhos dos ávidos leitores que entram em contato com Stoner certamente é o efeito transformador que a literatura produz no protagonista da obra.  No começo do livro, William Stoner é um jovem rapaz que, vindo do campo para cursar agronomia na Universidade do Missouri, esbarra numa disciplina de literatura e é tomado por um misto de fascinação e receio. Após os primeiros contatos penosos com o texto literário – natural para quem não está habituado à leitura –, Stoner depara-se, em sala de aula, com um soneto de Shakespeare que provoca nele uma espécie de reviravolta existencial. A partir daí, a vida acadêmica de William Stoner toma novos rumos: ele se dedica ao estudo das letras e, após mestrado e doutorado, torna-se professor universitário.

Essa é a primeira manifestação significativa do que desejo discutir: o amor. De modo discreto e singelo, Stoner é um romance sobre as diferentes formas que podem tomar as relações amorosas. O amor aos livros; o amor matrimonial; o amor paterno; o amor extraconjugal. Para situar essa questão, acredito que três momentos na obra mereçam especial destaque: (1) o impacto primeiro causado pela literatura; (2) o casamento com Edith; (3) o relacionamento com a orientanda Katherine.

O primeiro já foi apontado: a epifania literária de William Stoner, que poderíamos compreender como o gesto primordial – embora quase involuntário – de identificação com o Outro. Em um olhar abrangente do romance, poderíamos mesmo dizer que a Língua, a Literatura e o Ensino são as bases sólidas que sustentam o sentido da vida conturbada de Stoner. Quando tudo falha, lá estão esses três pilares.

A segunda situação que deve ser ressaltada é a do casamento de Stoner com Edith. Em nenhum momento, a meu ver, são criadas condições que nos levem a ingenuamente acreditar que o relacionamento entre essas duas personagens será harmonioso. Edith deixa transparecer sua afetação logo nos primeiros contatos com William, demonstrando um comportamento atípico e até exótico. No entanto, jamais esperaríamos tamanho drama matrimonial; de modo que o nosso protagonista, no seu primeiro relacionamento erótico-afetivo, acaba defrontando-se com uma espécie de desprezo ilógico, sendo Edith quase como que um enigma indecifrável para o leitor.

Por fim, o terceiro momento alto do livro foca no relacionamento entre Stoner e Katherine, sua orientanda. Aqui, parece haver uma conciliação entre William e as frustrações amorosas. Ironicamente, ele encontra na amante e no “amor impossível” os momentos de mais pura felicidade e harmonia. A relação Stoner-Katherine é simetricamente oposta à relação Stoner-Edith.

Paralelamente a essas três situações mais representativas no romance, temos outras pequenas manifestações do sentimento amoroso (as quais, apesar de aparentemente menos desenvolvidas, são de grande complexidade): a admiração pelo professor Archer Sloane; a amizade de Gordon Finch e David Masters; e o vínculo até certo ponto consonante com a filha.

Além disso, poderíamos ainda focalizar um quarto momento-chave no funcionamento dessa lógica, em que o ódio – contrário do amor – se manifesta: o conflito entre William Stoner e Holly Lomax. Aqui me parece haver a expressão mais evidente da ética incorruptível de Stoner, sujeito que, duramente ciente das responsabilidades envolvidas em seus atos, comete – talvez por ingenuidade – uma série de equívocos que terão como consequência a tragédia da vida comum.

Dessa maneira, vemos John Williams construir pequenas narrativas que tem Stoner como núcleo central dinamizador e que se entrelaçam na construção do percurso-vida do protagonista, elaborando, assim, por meio dessas relações, uma linha temática de discussão a respeito da busca pela possibilidade de significar a existência.

Nessa perspectiva, talvez a obra possa gerar em muitos leitores uma identificação tão brutal que os leva a investir certo sentimentalismo num texto em que não há sentimentalismo nenhum. A própria escolha da narração em terceira pessoa provoca um efeito de sentido de objetividade, criando o afastamento necessário para a descrição crua da vida de um homem comum. John Williams fala nos silêncios. Não há afetação ou sobressaltos em seu texto: ele é preciso e direto.

É, então, nessas articulações entre o sujeito que age sobre o mundo e o mundo que afeta os estados do sujeito que vemos John Williams construir, com uma linguagem sóbria, a universalidade do drama particular. Valendo-se de uma precisão incisiva, Stoner parece ir progressivamente desarmando seu leitor, até colocá-lo em face da insignificância de sua própria vida. Com um desfecho belo e digno, o romance desperta em nós o lado mais afetivo do processo de leitura.

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