A morte do pai (Karl Ove Knausgård)

a morte do pai

Publicado originalmente em 2009, o romance A morte do pai, do norueguês Karl Ove Knausgård, chegou às livrarias brasileiras em 2013, com tradução de Leonardo Pinto Silva, e inaugura um projeto autobiográfico ambicioso de seis volumes. Já tendo vendido mais de 500 mil exemplares na Noruega, o livro logo se tornou um sucesso de crítica e público no Brasil. E, de fato, há razões para os elogios – o que, no entanto, não apaga os defeitos da obra.

Apesar da dificuldade em condensar o enredo do romance, poderíamos dizer que temos como história nuclear aquilo que o próprio título anuncia: o falecimento do pai de Knausgård. Imagino que um leitor mais curioso, provavelmente ainda não familiarizado com a obra, poderia perguntar o porquê de, em meu entendimento, haver certo inconveniente em qualquer síntese da trama do livro. Explico: devido à organização caótica do romance.

Tendo em vista o caráter (auto)biográfico deste trabalho de Karl Ove, muitos podem vir a considerar essa estrutura desordenada como uma falha. Contudo, tal julgamento me parece equivocado. O que temos diante de nós é, inevitavelmente, ficção. A memória inventa, altera, apaga – e o romancista que opta por trabalhar com o passado não precisa, ao contrário do biógrafo, ter preocupação alguma em reconstituir “fidedignamente” aquilo que aconteceu. (Para não falar também das questões éticas e editoriais que limitam o trabalho do autor; afinal, muitas das personagens citadas no livro ainda estão vivas…)

Na verdade, essa espécie de mosaico bagunçado me parece funcionar muito bem para esse tipo de projeto literário. Ele instiga a curiosidade e não deixa o romance cair na monotonia, aspecto que poderia ocasionar a desistência por parte de muitos leitores. Ponto para Knausgård!

O que resulta disso são longos parágrafos – que, por vezes, chegam a ocupar mais de duas páginas – escritos de modo muito elegante. Esse último aspecto da escrita do autor, a propósito, é algo que deve ser ressaltado. Apesar da crueza de Karl Ove em certos momentos no livro, não há alterações muito bruscas no tom geral da obra, que não é nem muito exaltada nem muito apática.

Poderíamos comparar, assim, a estrutura do romance à raiz pivotante de uma planta, em que temos um eixo principal (a morte do pai e as suas implicações) que inter-relaciona todas as outras pequenas narrativas paralelas (infância, juventude e adolescência do protagonista, com seus conflitos, questionamentos, descobertas e expectativas).

Além disso, observamos uma percepção muito aguçada do autor em relação a pequenos detalhes da vida cotidiana, fato que, muitas vezes, gera em nós uma identificação com o texto. Acredito que essa seja a principal característica que leva a maioria da crítica a comparar o empreendimento literário de Knausgård com a obra de Marcel Proust – além, é claro, da ideia mesma de buscar (para usar uma palavra do autor de Em busca do tempo perdido) a própria vida por meio da literatura.

Embora todas essas virtudes de A morte do pai, o romance não é impecável. E Knausgård peca pelo excesso. A percepção atenta do autor leva-o a, de quando em quando, se exceder no detalhismo e se prender a determinadas passagens que poderiam ser tranquilamente excluídas do livro. Darei um único exemplo disso, apenas uma frase, a qual não precisará de contextualização e, portanto, servirá também para aqueles que ainda não leram a obra: “Ele abriu a boca, mordeu um pedaço de salsicha e entregou uma nota de cinquenta ao vendedor” (p. 378). Pensemos bem: se se vai morder algo, é necessário dizer que a boca será aberta?

Esse é apenas um exemplo pequeno e ilustrativo – que, certamente, pode levar muitos a me rotularem como demasiadamente exigente; no entanto, esse tipo de utilização redundante e excessiva se repete com certa frequência na obra. Outra forma de demonstrar isso é observar a quantidade abundante de usos do “Sim” na construção de diálogos, os quais, em muitos casos, são definitivamente inúteis. Ou seja, embora elegante e agradável, a escrita de Knausgård não é precisa.

Tenho como hipótese que, devido à profunda identificação que o leitor terá com o protagonista e com o livro como um todo – já que a vida banal, com seus acontecimentos e pequenezas, é o que está sendo narrado –, o lado sentimental da leitura tenha cegado o olhar avaliador de muitos resenhistas e críticos que parecem superestimar o valor do romance. É um trabalho muito bom, mas não genial.

Esse primeiro volume da série Minha luta ainda nos proporciona uma interessante reflexão a respeito de algo cada vez mais recorrente na literatura contemporânea: a autoficção. Até que ponto a ficção é ficção? Parece rentável discutir as demarcações entre realidade e criação? A busca por uma reconstrução da noção de romance vem ganhando fôlego progressivamente desde o começo do século XX, e a autoficção, cada vez mais recorrente em publicações atuais (basta que lembremo-nos de Lina Meruane e Elena Ferrante), me parece contribuir de maneira profunda para a estruturação de novos modelos literários. Os limites da linguagem estão sendo testados.

Apesar dos pequenos problemas, A morte do pai merece os louvores que vem recebendo. Somente a capacidade de Karl Ove Knausgård para, por meio da observação zelosa do detalhe, despertar em seu leitor grande interesse emocional pelo corriqueiro já é algo louvável. Certamente procurarei ler os próximos volumes.

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