A gente vai levando – ou a situação da leitura no Brasil contemporâneo

Little Girl Reads in Bookshop

Saio da livraria. Como sempre, uma sacola na mão. Nela, três livros: Mann, Giannetti, Roth. Lembro que preciso de marca-textos. Vou à papelaria. Procuro, encontro, escolho – vamos ao caixa. Na fila, um homem atrás de mim pergunta “Você gosta de ler?”. Iniciamos aquele velho papo. Gosto bastante. Comprou o que aí? Dois romances e um livro de não-ficção. E você já leu aqueles livros de Nárnia? Li sim. Poxa, mas são muitos! leu todos? (Risos) De fato… mas li todos, naquela edição preta de volume único. E aquele Harry Potter, cê leu? Li sim. Caraca! (incredulidade) mas você não deve ter lido aquele Senhor dos Anéis…? Li também. E gostou? Principalmente do último, muito bom. Poxa, então você gosta de ler mesmo; mas por que? Pra ficar se achando no colégio, né?

Paro nessa pergunta. À parte o fato de o rapaz não saber que sou estudante de Letras e me enquadrar no ambiente escolar – muito provavelmente pela minha cara juvenil –, o que essa pergunta nos diz a respeito da imagem que se tem no Brasil dos leitores? A que está associada a figura livro no nosso país?

Venho de uma família de leitores. Meu bisavô era professor de francês e grande leitor, tendo incentivado, portanto, todos os filhos a ler. Assim, minha avó é uma leitora – embora não muito ávida – e casou-se com um homem (meu avô) que também é bastante dado aos livros. Por conseguinte, tanto meu pai – formado em Filosofia – quanto minhas tias são interessados por literatura. Além disso, minha mãe – formada em Letras – sempre me incentivou muito a ler. Logo, para mim, nascido no seio da leitura, o objeto e a figura do livro são absolutamente naturais. No entanto, infelizmente, essa não é a realidade do país como um todo.

De acordo com o Censo do IBGE de 2010, 9% da população brasileira (com mais de 10 anos de idade) é de não-alfabetizados, o que equivale a dizer que aproximadamente 18 milhões de brasileiros não sabem ler nem escrever. 18 milhões de brasileiros não sabem ler nem escrever. 18 milhões. Milhões. Para termos uma noção melhor desse número, a população do Uruguai é de 3,407 milhões de pessoas, ou seja, é como se, dentro do Brasil, seis Uruguais são soubessem ler nem escrever. Ou a população inteira do Chile. O problema maior do analfabetismo se concentra na região Nordeste – onde nasci e moro –, em que mais de 15% da população é analfabeta.

É certo que esse quadro vem se invertendo. De 2000 para 2010, a taxa de analfabetismo diminuiu de 12,8% para 9%, o que, embora não seja uma melhora tão grande, é uma melhora. Apesar disso, ainda é preciso que pensemos em outro obstáculo: o analfabetismo funcional, isto é, a incapacidade de ler e compreender textos simples. Segundo a pesquisa realizada pelo Inaf em 2011/2012, o percentual da população alfabetizada funcionalmente, de 2001 para 2011, aumentou de 61% para 73%, mas apenas um em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Ou seja, não obstante 91% da população brasileira seja alfabetizada, somente 73% é capaz de dominar a leitura e a escrita. Esses dados são, no mínimo, preocupantes.

Voltemos, assim, para o ponto inicial. Num país em que quase 30% da população não domina plenamente a leitura e a escrita, qual é a visão que se forma dos livros? Qual é a visão que se forma dos leitores? O leitor ávido é comumente associado ao pedantismo, à inacessibilidade, à elite. Falo por experiência. É estranho quando reparamos que uma pessoa regula o discurso para conversar conosco (meros leitores). Pensa-se nas palavras, na transitividade dos verbos, no uso dos pronomes relativos. Quando a figura do livro, do leitor, da leitura vai descer do pedestal e passar a ser encarada como algo corriqueiro? Ela faz bolo, ele gosta de jardinagem, ela ali lê uns livros, aquele outro vai pra academia, esse aqui curte rock etc. etc.

Façamos o seguinte: saiamos do questionamento temporal e passemos às razões. Por que a figura do livro (ou do leitor) é comumente associada a algo transcendental, inatingível, fora da realidade? Imagino que seja natural pensarmos a leitura como uma forma de aquisição de conhecimento. Até aí, nenhum problema. Contudo, parece-me que vivemos em um país em que o desenvolvimento de um saber tem que estar necessariamente atrelado à ideia de uma educação formal. Ora, mas estudar é uma obrigação, e obrigações são chatas (uma vez que não são lazer). Logo, estudar é chato. Por conseguinte, ler é chato. Por que você fica lendo esses livros? Para de estudar! Vai sair com seus amigos, jogar futebol na rua, tomar sol na praia! Qual a compreensão de aprendizagem que estamos construindo em nosso país?

Não podemos continuar ignorando a necessidade urgente de estabelecer diálogos entre o conhecimento e os interesses pessoais dos alunos. Para isso, parece-me ser fundamental a dissociação entre a obtenção de saberes e o dever logo nos primeiros estágios do desenvolvimento educacional.

Pasmem: o livro pode, sim, estar relacionado ao lazer. É possível eu me divertir e aprender lendo Hamlet, Dom Casmurro ou Harry Potter. E, muitas vezes, eu aprendo muito mais lendo Rei Lear, Crime e castigo e São Bernardo do que lendo um documento histórico de 1700 e lá vai bolinha. No entanto, outros pontos problemáticos surgem para complicar a questão. Qual o papel exercido pela escola no estabelecimento de uma ponte entre a literatura e o aluno? A leitura está sendo de fato incentivada ou os clássicos estão simplesmente sendo empurrados goela abaixo pelos professores?

Em maio deste ano, o Estadão fez uma matéria a respeito da última Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro. 5.012 pessoas, alfabetizadas ou não, foram ouvidas, mesma amostra da pesquisa passada. De acordo com a pesquisa, a taxa de leitores aumentou de 50% para 56% de 2011 para 2015, indicando que o brasileiro lê em média 4,96 livros por ano, sendo 0,94 indicados pela escola. Ou seja, mais ou menos 20% das leituras feitas são indicações escolares, o que é um número razoável. Ora, e quais os fatores que levam à leitura dos outros 80%? Nas palavras de Maria Fernanda Rodrigues, autora da matéria:

“Entre as principais motivações para ler um livro, entre os que se consideram leitores, estão gosto (25%), atualização cultural ou atualização (19%), distração (15%), motivos religiosos (11%), crescimento pessoal (10%), exigência escolar (7%), atualização profissional ou exigência do trabalho (7%), não sabe ou não respondeu (5%), outros (1%).” (para ler a matéria na íntegra, clique aqui)

Parece ser possível concluir, então, que temos dois extremos de perfis de leitor: de um lado, os que leem por interesses outros que não literários – o que fica ainda mais claro se levarmos em consideração que a Bíblia é o livro mais lido –; do outro, os que são forçados a ler literatura pelo ambiente escolar. No final das contas, percebemos que seis e meia dúzia são a mesma coisa. E onde está o leitor médio? Aquele que busca o texto literário por interesse pessoal? E mais: o que é lido no Brasil?

Rodrigues assinala ainda em sua matéria os motivos pelos quais os não leitores justificam o fato de não terem lido nenhum livro inteiro ou em partes nos três meses anteriores à pesquisa:

“As respostas: falta de tempo (32%), não gosta de ler (28%), não tem paciência para ler (13%), prefere outras atividades (10%), dificuldades para ler (9%), sente-se muito cansado para ler (4%), não há bibliotecas por perto (2%), acha o preço de livro caro (2%), tem dinheiro para comprar (2%), não tem local onde comprar onde mora (1%), não tem um lugar apropriado para ler (1%), não tem acesso permanente à internet (1%), não sabe ler (20%), não sabe/não respondeu (1%).”

Dois aspectos me chamam a atenção nessas respostas. O primeiro é o da falta de paciência/tempo/gosto para a leitura. Sabemos que, no Brasil, há cidadãos que não tem tempo nenhum para ler (dado as horas de trabalho, obrigações familiares etc.) e que, quando o tem, estão cansados demais para o esforço intelectual – fato que é absolutamente compreensível. Contudo, será mesmo que todas as pessoas que deram essa justificativa de fato são impedidas por ela? Me assusta que mais de um terço dos entrevistados esteja tão atolado de atividades como diz, pois aí precisaríamos discutir não a leitura, mas a qualidade de vida do Brasil (que daria um outro texto enorme como este).

Em 2014, Danilo Venticinque propõe uma das perguntas mais polêmicas do ano em um texto para a revista Época: “Quem, nos dias de hoje, tem tempo para ler um romance de 800 páginas?” Ora, quem puder e quiser. É certo que a trajetória de leitura é mais longa, mas é a mesma de qualquer outro livro. Só falta vontade. Quando, então, ler 600, 700, 800 páginas vai deixar de ser um feito e passar a ser simplesmente um fato?

O segundo aspecto que me chama a atenção nas razões do brasileiro para não ler é o das condições para o acesso (fácil) ao livro. Como não posso avaliar as questões relativas às bibliotecas no Brasil, dado o meu total desconhecimento, focarei na perspectiva mercadológica. Em poucas palavras: sim, o preço dos livros é alto no nosso país. Por que? Simples: porque as tiragens são baixas, uma vez que o mercado é pequeno. Enquanto em outros países as tiragens médias são de mais de 10.000 exemplares, no Brasil esse número fica na casa dos 2.000. O leitor brasileiro é prejudicado pelas tiragens pequenas e as editoras são prejudicadas pelo mercado pequeno de leitores. Bom e velho círculo vicioso. O barateamento do livro seria a solução mais eficaz para, no período de tempo de alguns anos, esse quadro (talvez) mudar.

No entanto, felizmente (ou não), vivemos na era da técnica, onde as coisas podem estar apenas a um click de nós – metáfora fraca, batida, mas real. Sites como o Lê Livros, por exemplo, que oferece clássicos e lançamentos para baixar gratuitamente em diferentes formatos, são uma alternativa ótima para aqueles que não podem pagar os valores cada vez mais absurdos que as livrarias cobram. A questão é: estamos procurando livros ou curtidas na internet?

Apesar de todos os dados catastróficos e preocupantes que temos com essas pesquisas, um (da matéria do Estadão) me deixa esperançoso quanto ao futuro do Brasil leitor: “Adolescentes entre 11 e 13 anos são os que mais leem por gosto (42%), seguidos por crianças de 5 a 10 anos (40%)”.  Essas crianças e jovens, que provavelmente agora estão lendo John Green, Jogos Vorazes e Divergente, no futuro, terão uma possibilidade muito maior de se tornarem bons leitores e, quem sabe, ir gradualmente alterando a situação leitora brasileira. Ou seja: mesmo com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema, toda a Ipanema, a gente vai levando.

Com o que foi discutido, voltamos ao nosso ponto de partida: a leitura é uma forma de segregação e pedantismo? Para muitos, infelizmente, sim. Usam o livro na construção de um ethos, de um status. Lamento que esse tipo de postura exista, pois ela somente prejudica o lento processo de capilarização do conhecimento e democratização da leitura, aspectos tão importantes para a construção de um pensamento crítico sério em um país como o nosso (latino, do hemisfério sul, de língua portuguesa), que tem uma responsabilidade histórica de tomar para si a noção de civilidade e reinventá-la com toda a sua riqueza cultural.

Fica a nosso encargo, então, a tarefa de contribuir, de modo direto ou indireto, para o desenvolvimento de uma nação leitora, que, embora as crises culturais sucessivas que venha passando, talvez possa vir a ser, num olhar prospectivo, uma grande e significativa comunidade de leitores – abertos, ávidos, comuns.

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