Fantasma sai de cena (Philip Roth)

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Para os que conhecem um pouco minha trajetória como leitor, certamente não é novidade a minha admiração pelo trabalho do escritor americano Philip Roth. Desde que o conheci, em setembro de 2015, com o livro Indignação, venho tentando ler sua obra com certa sistematicidade. Fantasma sai de cena, publicado originalmente em 2007, figura como a vigésima sétima publicação ficcional do autor – e oitavo romance que dele leio –, demonstrando a admirável capacidade de um artista para consolidar uma produção frutífera e de alta qualidade.

Em linhas gerais, pode-se dizer que o livro trata do retorno de Nathan Zuckerman – alter ego de Roth e personagem recorrente em sua obra – à cidade de Nova York. Em busca apenas de um tratamento médico para os problemas decorrentes de um câncer de próstata, o protagonista acaba por se enredar em conflitos ligados à escrita da biografia de E. I. Lonoff, antigo conhecido seu e escritor pelo qual ele nutre grande fascínio, confrontando-se, assim, com um contraste avassalador entre o passado e o presente.

A meu ver, o que temos, então, de característica mais marcante nesse trabalho é o choque de gerações. Zuckerman entra em contato, primordialmente, com quatro personagens: Billy, Jamie, Kliman e Amy; e com todos estabelece uma relação de identidade, uma vez que compartilha com eles um mesmo valor. Pensemos melhor a questão. Os três primeiros são jovens escritores, ávidos por produzir algo único e significativo, identificando-se com Zuckerman, portanto, por meio da literatura. No entanto, enquanto Nathan reflete uma geração passada e já obsoleta em seus hábitos, esses outros se configuram como a representação de uma nova geração, que (como toda geração de jovens ativa e esperançosa) sonha em mudar o mundo de alguma maneira. Para exemplificar isso basta que vejamos o momento em que Zuckerman, Billy e Jamie se reúnem para acompanhar o resultado da eleição do presidente dos Estados Unidos. Billy e Jamie ficam absolutamente desolados e, diria eu, até transtornados com a vitória de Bush, enquanto que para Zuckerman – que, aos 71 anos, está afastado há dez em sua casa de campo na Nova Inglaterra – já pouco importa quem será o presidente.

E é justamente por esse fato que Zuckerman identifica-se também com Amy: o objeto que os inter-relaciona é a degradação. Ambos são o espelho de uma geração decadente, que contrasta tão fortemente com a ambição ainda intensa de Kliman, por exemplo. Assim como Amy, Zuckerman deteriorou-se com um câncer. E, assim como Amy, ele vai aos poucos tendo cada vez menos controle de suas capacidades mentais.

Desse modo, Nathan parece dialogar com essa nova geração de três maneiras diferentes, cada uma encarnada por um personagem. De um lado, há uma postura combativa, que é simbolizada pela figura de Kliman, tendo em vista que com ele o protagonista entra em embates fervorosos que parecem buscar inibir a avidez ameaçadora dessa nova juventude. Do outro, um comportamento apaixonado, representado por Jamie, uma vez que a fascinação de Zuckerman pelo que a moça encarna do engajamento volúvel e da intelectualidade charmosa beira a loucura. Por fim, uma atitude conciliatória, perceptível em Billy, com quem quase não é estabelecida uma identificação e que não parece representar nenhum tipo de perigo para a geração de Nathan.

O romance põe em xeque, portanto, o embate enfrentado pelo consagrado personagem Nathan Zuckerman no reconhecimento da ascensão de um novo tempo que a ele não pertence e que, dado seu isolamento, ele quase não viu acontecer. Nesse cenário, Philip Roth volta a explorar temas como a solidão, a velhice e a decadência, tão caros à sua obra.

Além disso, é interessante observar como problemáticas relacionadas à própria escrita e à literatura são desenvolvidas no livro. Vemos dois tópicos – intimamente ligados – surgirem como principais: (a) a associação exagerada de ficção e realidade; e (b) o uso da ficção para ir para além da realidade. Kliman, na busca histérica pelo “grande segredo” que dará fôlego à sua biografia sobre Lonoff, tenta justificar um romance inacabado do escritor por meio de sua vida e deseja, acima de tudo, convencer os outros – e, sobretudo, ele mesmo – de que tem razão quanto a isso. Ora, quantos leitores não há por aí que só sabem ler os textos à luz da vida do autor? Precisamos realmente do fato biográfico para ler e compreender um romance, um conto, um poema? Parafraseando Eco: o autor, depois de escrever seu livro, deveria morrer. A busca pela biografia é apenas uma tentativa de saciar nossa curiosidade acerca dos bastidores do parto da arte: nada mais. O que o autor poderia fazer por nós, já fez – que comece a nossa parte no trabalho: leiamos.

O segundo ponto é particularmente curioso para pensar a própria figura de Zuckerman enquanto autor, que usa a literatura para realizar em ficção aquilo que não pode ocorrer na vida prática. Mais uma vez: real ou imaginário?

Apesar de todos esses aspectos notáveis de Fantasma sai de cena, na minha perspectiva, o romance dialogará melhor com leitores já iniciados na obra de Philip Roth. Parece-me que o romance não provoca o impacto de outros trabalhos do autor, como A marca humana ou O animal agonizante, talvez opções melhores para um primeiro contato com o texto de Roth.

Em depoimentos sobre Shakespeare, Barbara Heliodora, consagrada crítica brasileira de teatro, afirma que, mesmo quando nos deparamos com uma peça fraca do Bardo, ela ainda é muito melhor do que boa parte do que já se produziu no mundo. Creio, portanto, que o mesmo se aplica ao trabalho de Philip Roth. A singularidade da escrita do autor se apresenta em Fantasma sai de cena como em todos os seus outros romances, sendo quase indiscutível a qualidade estética de sua obra. Sem dúvida, um escritor que não deve ser ignorado.

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