O pintassilgo (Donna Tartt)

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Grandes romances (e quando falo grandes, quero dizer longos) tendem, normalmente, a nos fazer mergulhar profundamente em um enredo que – pelo próprio volume do livro – acreditamos que deva ser envolvente. Parece, então, que, para que o leitor consiga ultrapassar mais de 700 páginas sem fraquejar, dois movimentos possíveis entram em ação: ou (a) o de a obra puxar o leitor para dentro de si ou (b) o do leitor – por força da persistência vigorosa ou da esperança crédula – se obrigar a penetrar a cerne da obra.

O pintassilgo, de Donna Tartt, parece criar não uma tendência única de movimento no seu grupo de leitores, mas uma polarização: de um lado, os leitores fiéis, que estão, de modo geral ou mesmo completamente, satisfeitos com o romance; do outro, aqueles que parecem ter dado um passo para trás tendo em vista as aclamações muito calorosas que, por vezes, podem parecer impensadas. Em quem acreditar? Ora, diante da situação, parece-me justo que o bom leitor deva comprar o livro (tomá-lo emprestado, procurá-lo em bibliotecas, não sei), lê-lo e tirar suas conclusões. E foi o que fiz.

Narrado em primeira pessoa, o terceiro trabalho da escritora americana Donna Tartt (que, diga-se de passagem, foi vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2014) nos leva a acompanhar mais de dez anos da vida de Theo Decker, um rapaz que, aos 13 anos, perde a mãe num atentado terrorista. Na ocasião, o protagonista, por recomendação ou pedido de um moribundo ao seu lado, Welty, toma para si um quadro de Fabritius, “O pintassilgo”. A partir daí, seguimos toda a trajetória de deslocamento e desorientação do personagem diante dos novos caminhos que sua vida tomará com o falecimento de sua mãe (o que inclui o envolvimento com drogas, pequenos furtos na adolescência, negociatas perigosas no mercado de antiguidades etc.).

Se pararmos para observar rapidamente algumas questões centrais da história d’O pintassilgo, somos levados a afirmar – com, a meu ver, excesso de precipitação – que ele é absolutamente genial. Por partir de um tema atualíssimo, os atentados terroristas e os traumas que eles deixam, para chegar a questões como arte, relação estética, drogas, ausência etc., uma obra como essa não poderia deixar de chamar atenção. No entanto, quando vamos às vias de fato, percebemos que, embora a boa ideia, o romance foi mal realizado. Tentemos explicar, então, o porquê disso.

Um aspecto que parece já ter sido bastante frisado por muitos críticos e resenhistas é a tentativa de resgate por Donna Tartt dos grandes romances do século XIX. Algumas características que pontuei evidenciam isso: o foco na trajetória de vida de um personagem (conhecido romance de formação); o enredo folhetinesco, isto é, caudaloso e extenso; a figura do flanêur, tão cara a Balzac e encarnada por Theo (quando este anda pelas ruas de Nova York prestando atenção nos detalhes mínimos dos movimentos da cidade); e o característico órfão, comum em Dickens. Além disso, a influência deste último e de Dostoiévski estão claramente declaradas no livro – não obstante não tenham sido tão bem utilizadas.

Desse modo, parece-me que Tartt tenta recriar esse tipo de livro numa perspectiva contemporânea, tendo sido, infelizmente, incapaz. Na medida em que a autora se pretende a escrever um romance sobre a formação de um personagem, o leitor espera acompanhar uma figura que venha a se desenvolver não apenas fisicamente, mas também emocional e psicologicamente. Contudo, o Theo do começo do livro parece ser o mesmo do final. Inerte, apático, quase nulo. As falas do personagem, repletas de frases incompletas do tipo “Hã…” e “Eu…”, demonstram claramente a imobilidade irritante dele. Ora, num primeiro momento, parece plausível justificar essa estaticidade ao trauma da morte súbita da mãe; no entanto, parece-nos que essa justificativa é utilizada até o final da obra sem ser eficientemente convincente. Ele não amadurece? Será eternamente a criança do museu? Se sim, quais os recursos literários usados pela escritora para persuadir o seu leitor quanto a isso? A meu ver, não houve nenhum. Donna Tartt se contentou em achar que somente aquele acontecimento inicial serviria de meio para sanar todo e qualquer problema quanto à construção psicológica do seu protagonista.

Ademais, o romance se apresenta como um trabalho que dará atenção especial ao universo da arte e à relação de Theodore Decker com a pintura de Fabritius; mas não. O quadro, que deveria ser o motor de toda a trama, parece ser deixado de lado em vários momentos, e o principal deles é, sem sombra de dúvida, o (longo, interminável, infindável, inacabável) período de adolescência de Theo em Vegas com seu melhor amigo Boris. Se o propósito de Tartt foi alongar aquela etapa para destrinchar a vida conturbada de dois adolescentes desregrados e utilizar isso como justificativa para consequências futuras no romance, ela foi infeliz.

A reviravolta que temos em relação à pintura na segunda metade do romance – e que está conectada à adolescência dos personagens – é, de fato, interessante; porém, deságua em clichês terríveis, como a conversa entre Theo e Pippa no bar, depois de terem ido ao cinema – ficou evidente que a autora não confiou de modo algum na inteligência do seu leitor e precisou explicar algo que poderia perfeitamente ter ficado nas entrelinhas – e o diálogo entre Theo e Boris no quarto do hotel em Amsterdam, cheio de filosofias de uma falta de originalidade não rara de encontrar na má literatura.

Por fim, Tartt ainda consegue encerrar o seu livro com um desfecho que tende para a autoajuda barata. Além de deixar várias pontas soltas numa falta de domínio retórico que beira o cômico – pois não temos neste livro um final aberto, mas sim um final ruim, que não atende de modo eloquente a todo o desenrolar da obra –, a escritora pretendeu deixar uma mensagem moral e uma lição de vida tão óbvias quanto um romance de Paulo Coelho.

Desse modo, acredito que o grande problema d’O pintassilgo seja, afinal, o excesso. Embora o detalhismo de Donna Tartt seja admirável e não podemos negar essa qualidade em sua escrita, muitas vezes ela se prende a questões que não tem a menor relevância para o desenvolvimento do seu trabalho, de tal modo que a autora perde o tom. O desejo de criar uma trama extensa que se concentrasse nos conflitos de um personagem marcado pela violência do terrorismo parece, definitivamente, uma ótima ideia – ei-la desperdiçada. De modo sintético: uma pretensão virtualmente fantástica realizada de maneira insatisfatória. Um romance decepcionante.

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2 comentários sobre “O pintassilgo (Donna Tartt)

  1. A Letra Escargot disse:

    Você é um herói de conseguir ler este livro até o final… O que mais me repugnou nesse livro é a forma como o tempo passa. Não sei explicar. Como a autora trabalha o passar do tempo, tão lentificado pra desaguar em que? Em superficialidade. Eu senti o mesmo com o “Na Ponta dos Dedos” (Sarah Waters), que pode ter reviravoltas geniais a cada 200 páginas, mas meu deus, como as coisas são apontadas de forma desinteressante durante essas 200 páginas. Tanto a Waters quanto a Tartt são vistas como influenciadas por Dickens, mas o timing dele é extremamente diferente (embora eu nunca tenha conseguido terminar um de seus livros… to com “Bleak House” aqui ainda me olhando). E ano passado eu fui com um pé atrás para “As Regras da Casa de Sidra” (do John Irving, assumidamente influenciado por Dickens), e que coisa maravilhosa. Até os trechos de “David Copperfield” ou “Grandes Esperanças” citados pelo protagonista ficam lindos pelo olhar dele. Te indico muito “As Regras”, são 800 páginas que passam voando.

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