A marca humana (Philip Roth)

a marca humana

“O homem que decide forjar um destino histórico só para si próprio, que decide romper os grilhões da história, e que consegue faze-lo, que consegue de modo brilhante alterar o destino que lhe fora reservado, para por fim cair na armadilha da história que ele não havia levado em conta, da história que ainda não é história, da história que está transcorrendo agora no relógio em cada tique-taque, da história que está proliferando enquanto escrevo, ganhando um minuto de cada vez, e que será apreendida melhor pelo futuro do jamais o será por nós. O nós que é inescapável: o momento presente, o destino comum, a mentalidade atual, a mentalidade do país em que se vive, a pressão da história que é o tempo em que se vive. Golpeado de surpresa pela natureza terrivelmente provisória de tudo.” (pp. 422 e 423)

O nome de um autor premiado e bem comentado já encapsula em si a aura do “escritor consagrado”. Ora, para o leitor (embora não para todo leitor), o rótulo “escritor consagrado” pode representar uma grande expectativa. E ainda é possível complementar esse letreiro com “A obra”. Avolumemos a expectativa então: “uma das grandes obras do escritor consagrado”. Essas rotulações podem encarnar uma decepção imensa de leitura ou uma grande descoberta. Nada mais justo que este último para o romance A marca humana, de Philip Roth.

Publicado em 2000, o enredo do livro gira, basicamente, em torno de dois escândalos na Universidade de Athena relacionados ao professor de Letras Clássicas Coleman Silk: uma acusação de racismo por dois alunos e um relacionamento com uma faxineira do campus muito mais jovem que ele. Para os críticos, esse romance compõe, ao lado de Pastoral americana e Casei com um comunista, uma trilogia sobre a vida americana no pós-guerra.

Acredito que o primeiro ponto ao qual devemos nos ater ao pensar a obra de Philip Roth – em particular esse trabalho – são os investimentos discursivos e a concretização deles por parte do autor. O texto de Roth apresenta temas figurativizados por elementos completamente imersos na cultura dos Estados Unidos. As imagens utilizadas por ele para veicular os conteúdos mais declaradas do romance estão muito ligadas ao contexto e ao pensamento norte-americano. São muitos os exemplos disso: o trauma dos conflitos raciais na história estadunidense, os escândalos políticos relacionados ao presidente Bill Clinton que permeiam o enredo, as marcas deixadas pela Guerra do Vietnã etc. E essas escolhas não dão ao autor nenhum traço de originalidade; afinal, qualquer escritor poderia ter trabalhado com essas questões. No entanto, a manifestação textual, ou seja, a escrita de Philip Roth dá outra dimensão à obra. Por exemplo, o momento em que Delphine Roux está escrevendo um anúncio amoroso para a New York Review of Books a fim de encontrar um relacionamento poderia, nas mãos de um mau escritor, ter ficado completamente ridículo e caído no mais terrível tipo de clichê; contudo, pela forma como trabalha, Roth consegue transformar a cena num meio para explorar a personalidade da personagem.

Além disso, o autor consegue operar muito bem com jogos de enunciação, isto é, há uma transposição desavisada de enunciador dentro do texto. Alguns poderiam chamar isso de fluxo de consciência; não obstante, a meu ver, seria algo mais para uma “invasão de consciência”. Como assim? Logo no começo do romance nós constatamos a existência de um narrador-mor dentro do romance – Nathan Zuckerman – e, em vários momentos, a voz de algum personagem toma conta da narrativa sem aviso prévio, como se, naquele instante, Zuckerman invadisse a mente daquela pessoa. Isso acontece, por exemplo, com Coleman, com Faunia, com Lester. Philip Roth confia na inteligência do seu leitor ao deixar marcas discursivas que o fará compreender quem está falando.

Aliás, é interessante pensar a figura de Nathan (que é considerado o alter ego de Roth) e observar como a lógica interna do romance se constitui exatamente ao se afirmar como ficção. Podemos chegar a duas conclusões: (a) ao eleger Nathan Zuckerman como autor do livro, Philip Roth dá o controle da trama principal a alguém que está fora dela ou apenas a tangencia, ou seja, a um observador “semiparticipante”, havendo, então, um embate interno à obra entre aquilo que seria fruto da imaginação de Zuckerman e o que seria de fato “real”; (b) sendo Nathan alter ego de Philip, numa noção extratextual, é como se o autor se projetasse dentro do próprio livro, o que adensa esse questionamento por parte do leitor entre o factual e o imaginário.

Ademais, à luz do conceito grego de moira, é possível dizer que, narrativamente, o romance de Philip Roth é bastante parecido com Édipo Rei, de Sófocles – o que nos faz pensar que não há nada de casual ou aleatório na epígrafe do livro. Vejamos: há um sujeito – no caso de Roth, Coleman; no de Sófocles, Édipo – que está em conjunção com um destino que não lhe agrada e, portanto, tenta fugir dele, ou seja, romper com a moira. No entanto, segundo o pensamento da Grécia Antiga, é impossível escapar do que nos está destinado, e essa tentativa de rompimento levará o herói ao sofrimento, à desgraça. Coleman nega a família e as origens negras e acaba, futuramente, sendo humilhado com um escândalo de racismo.

“A grande luta heroica contra aquele nós – para terminar daquele jeito! A luta apaixonada por uma singularidade preciosa, a revolta solitária contra o destino dos negros – e aquele grande desafiador terminar assim!” (p. 234)

Roth ainda consegue mostrar sua maestria ao trabalhar o conceito de moira paralelamente à ideia de estatuto social. O encontro de contrários – isto é, Coleman e Faunia – é o que implicará o descompasso motivador do conflito principal do enredo.

“Quem são eles agora? São as versões mais simples possíveis de si próprios. A essência da singularidade. Tudo o que é doloroso imobilizado na paixão. A repulsa que acumularam é demais para permitir isso. Conseguiram sair debaixo de tudo aquilo que foi empilhado em cima deles. Nada na vida os tenta, nada na vida os excita, nada na vida atenua o ódio que sentem pela vida tanto quanto essa intimidade. Quem são esses dois, tão radicalmente diferentes, formando um par tão incongruente, ele com setenta e um anos, ela com trinta e quatro? São a catástrofe a que eles estão condenados. Ao som da banda de Tommy Dorsey e da voz suave do jovem Sinatra, dançando nus em pelo, rumo a uma morte violenta. Cada pessoa neste mundo arranja um fim diferente: é esse o fim que esses dois arranjaram. Agora não há como eles se deterem a tempo. A coisa está feita.”

Esse romance parece, então, conter em si vários dos elementos essenciais da tragédia grega clássica: a meu ver, a hybris (violação da ordem estabelecida), o ágon (conflito decorrente da hybris), o desfecho trágico e a katharsis (efeito de purificação das paixões) seriam, por exemplo, os itens mais evidentes disso. Ora, o próprio nome da universidade – Athena – nos leva crer nesse paralelismo entre o trabalho de Roth e os conceitos poéticos gregos clássicos.

Acredito, também, que alguns outros pontos devem ser destacados sobre a construção do romance. O primeiro deles, que se relaciona primordialmente à leitura da obra, é a inteligência do autor em apostar na alternância de focos e numa narrativa que não segue a rigor uma linearidade temporal, havendo muitos retornos ao passado e pistas sobre o que ainda está por vir. Essas questões são muito importantes para a dinamicidade da leitura e pelo envolvimento do leitor com o texto – afinal, o livro não existe sem o leitor.

Um segundo ponto (que eu acredito que esteja presente em toda a obra de Philip Roth) é a preocupação histórica do autor. Roth usa dois fatos relevantes da história americana contemporânea como pano de fundo para A marca humana: o escândalo sexual do presidente Bill Clinton e o trauma deixado nos ex-combatentes pela Guerra do Vietnã. A escolha desses dois episódios não é, evidentemente, acidental – se o fosse, não seria Philip Roth. Ambos traduzem, historicamente, o drama ficcional constituído no livro. Assim como acontece em Indignação, é dada uma atenção especial para a relação entre o todo e o particular, isto é, como uma questão social, do grupo reverbera no indivíduo. Lester Farley é, por exemplo, um indivíduo completamente abalado e transtornado pelas marcas deixadas pela guerra.

Outro tópico essencial sobre esse romance é a construção das personagens. Roth consegue criar caracteres simplesmente magistrais. Ele não se limita apenas a personalidades fortes ou fracas, pessoas boas ou más, mas se mostra capaz de criar uma pluralidade de figuras excepcionais, cada uma com uma história e uma maneira muito particular, que inspiram no leitor sentimentos de fascinação, repulsa, incompreensão etc. É possível perceber isso, por exemplo, em Delphine Roux, uma criatura de extrema imaturidade e egocentrismo. Essa singularidade de cada personagem ainda nos é perceptível pelas manifestações nos diálogos, outro aspecto da obra de Roth que é inigualável.

Nesse romance, podemos observar, também, que não há nenhum tipo de idealização da realidade, ou seja, o escritor trabalha com a vida em toda a sua crueza. É evidente que esse é um texto guiado pela violência moral, de tal modo que os embates entre os personagens e internos a eles servem de base para a construção de um entendimento muito honesto do Humano.

Conclui-se, portanto, que o horizonte de expectativa apresentado no começo deste texto pode, numa perspectiva de gosto, não se adequar a todo leitor (o que acho muito difícil nesse caso); no entanto, é inegável a qualidade estética e o êxito literário obtidos por Philip Roth em A marca humana. De fato, um feito para poucos escritores.

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