A amiga genial (Elena Ferrante)

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Álvaro Lins, um dos maiores críticos literários que o nosso país já conheceu, ao escrever sobre os dois primeiros romances da escritora Clarice Lispector – Perto do coração selvagem e O Lustre -, afirma, no início do seu texto, que “uma característica da literatura feminina é a presença muito visível e ostensiva da personalidade da autora logo no primeiro plano”. Se tomarmos, assim, essa frase como verdadeira, podemos nos arriscar a dizer que sabemos alguma coisa sobre Elena Ferrante, autora do livro A amiga genial.

Publicado originalmente em 2011, esse primeiro romance da série napolitana chega ao Brasil sob o frisson do mistério em cima do nome da autora. Elena Ferrante é um pseudônimo. A autora não mostra o rosto e só concede entrevistas por email. Segundo ela, já fez “tudo que podia ter feito por seus livros escrevendo-os”. À parte a sagacidade da escritora em apostar que a obra pode andar independentemente, devemos, como leitores críticos, ter em mente também a inteligência comercial dessa escolha: nada melhor que a curiosidade para levar alguém a qualquer coisa.

Após o desaparecimento misterioso de Lila, Elena Greco resolve contar suas memórias e refazer a figura da amiga, relatando, nesse primeiro volume, a infância e a adolescência das duas em um bairro no subúrbio de Nápoles durante o pós-guerra. Com uma proposta de enredo muito simples, A amiga genial consegue, contudo, fazer um panorama admirável das relações humanas. Como a própria narradora diz logo no prólogo, ela pretende escrever essas lembranças como uma forma de vingança (já que se sentiu abandonada pela amiga) e de manutenção da figura de Lila; ou seja, logo no começo da obra somos apresentados ao tema central que será desenvolvido ao longo de toda a narrativa: a contraditoriedade de uma amizade entre mulheres.

Como já foi explorado à exaustão por muitos críticos e diversos resenhistas, o texto de Elena, ao contrário das suas personagens, é livre de hipocrisia. A autora parece não se preocupar muito com o choque que pode causar no leitor ao trabalhar com tamanha sinceridade. A narradora, ao falar, por exemplo, da infância, não se assemelha em nada ao que faz Casimiro de Abreu no poema “Meus oito anos”. Ela injeta com plena franqueza nesse ambiente de formação do começo da vida sentimentos e fatos relacionados à inveja, ao medo, à morte e à violência. No entanto, é preciso lembrar que, na segunda metade do século XX, em um subúrbio italiano devastado pela miséria decorrente da Segunda Guerra Mundial, esse era, de fato, o âmbito em que ela estava inserida. Desse modo, ao traçar diferentes caminhos para os personagens – mais especificamente para Lila e Elena (os quais o leitor acompanhará bem de perto) -, o livro acaba sugerindo um embate entre a potencialidade das escolhas e a força de um princípio determinista.

Além disso, ao optar pela narrativa em primeira pessoa, a autora conseguiu delinear muito bem a relação de amizade entre o sexo feminino. Lila e Elena, ao mesmo tempo que competem, torcem uma pela outra. O vínculo entre elas é inteiramente composto por uma amálgama de inveja e admiração. É como se elas precisassem da vitória da outra como estímulo para a superação delas mesmas.

Não contente com isso, a autora ainda faz questão de ampliar a discussão das relações interpessoais ao passear por uma variedade de personagens que se diferenciam em idade, gênero, ideologia política, condição social, etc. Ou seja, ela se pergunta (e nos pergunta) sobre como as mulheres agem em relação aos homens e a elas mesmas, e sobre como os homens agem em relação às mulheres e a eles mesmos; conseguindo, afinal, fazer uma avaliação inteligentíssima, levando-nos à cerne das ambiguidades e dos instintos humanos sem a necessidade de uma prolixidade linguística.

Ademais, a meu ver, a aura misteriosa que paira sobre a figura de Lila, nos dando a impressão de uma pessoa altamente segura e intensa, não deve ser levada tão a sério, uma vez que essa imagem está eivada por dois aspectos traidores: a memória e a narração em primeira pessoa. Somos, portanto, levados a questionar a expressão “suspensão da descrença”, utilizada pelo crítico inglês Coleridge para traduzir esse pacto de leitura criado entre leitor e autor. Acredito que, em muitos dos livros em primeira pessoa, a descrença deve estar, na verdade, em estado de alerta, senão seríamos obrigados a concordar que Ezequiel é mesmo filho de Escobar, não de Bentinho, como disse Capitu. Dessa maneira, ao ler, acabamos por concordar que Lila é, sim, cheia de uma forte personalidade, mas precisamos ter em mente que esse semblante de semideus dado à personagem pode ter sido maximizado por Elena. Afinal, como podemos acreditar piamente numa narradora que diz:

“Pareceu-me – formulando com palavras de hoje – que não apenas sabia dizer bem as coisas, mas que estivesse desenvolvendo um dom que eu já conhecia: melhor do que fazia quando menina, tomava os fatos e os transformava com naturalidade em eventos cheios de tensão; reforçava a realidade enquanto a reduzia em palavras, injetava-lhes energia.”

Elena Ferrante nos leva a pensar que, em verdade, não importa muito para a obra a vida do seu criador. Ela, de fato, pode vir a sofrer influências por parte dessa última, mas deve ter capacidade de caminhar sozinha tranquilamente. Assim, o único adjetivo do título da obra acaba por dizer muito mais sobre esta: A amiga genial não merece ser classificado com nada menos que o vocábulo brilhante.

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