A máquina de fazer espanhóis (Valter Hugo Mãe)

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Há um mito que atormenta leitores e escritores paranoicos de que não há mais como dizer nada em termos de arte e, por conseguinte, de literatura. Se pararmos para ler e analisar consciente e consistentemente a boa produção atual, essa suposição alucinógena cai por terra com um único exemplo. O nosso exemplo será, então, A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe.

Narrado na maior parte do tempo em primeira pessoa pelo senhor António Jorge da Silva, acompanhamos de modo bastante pessoal as reviravoltas emocionais desse idoso que, aos oitenta e quatro anos, após perder a esposa Laura, se vê internado no asilo Feliz Idade. Partindo disso, acredito que até um leitor que ainda não tenha entrado em contato com esse trabalho de Valter Hugo possa afirmar que o livro tem como tema central a velhice. No entanto, o autor, por vias não exatamente óbvias, dá a essa questão uma relevância muito distinta do que em geral é pregado.  É comum tomarmos a terceira idade como um momento de fechamento da vida, onde já não há mais espaço para um amadurecimento consequente de uma experiência; contudo, o senhor Silva, aos 84 anos, se vê obrigado a encarar um elemento transformador: a morte de Laura. Ou seja, Valter Hugo Mãe atenta para a potencialidade humana de transformação independente da marca cronológica.

Partindo, portanto, dessa situação-conflito que abre o livro, o leitor mergulha na consciência de um personagem em estado de mudança, que se vê colocado num lugar de estranhamento (isto é, o asilo), o qual, justamente por esse motivo, será por demais propício para a libertação do eu-agora para um eu-futuro modificado. E a experiência de torção de valores pela qual passa o personagem será semelhante a que nós passaremos.

Além de tratar com extrema beleza e sobriedade sobre essas questões tão intrinsecamente humanas, o autor, assim como faz Alejandro Zambra em Formas de voltar para casa, questiona um fato histórico do seu país com duras implicações: a ditadura. Embora a comparação com o chileno, Valter Hugo Mãe reflete essas questões de Portugal de modo completamente diferente: enquanto Zambra coloca Pinochet como uma figura por trás do enredo e lida com o regime militar de modo muito sutil; Valter Hugo introduz a amargura e a culpa dentro dos seus personagens, isto é, idosos que viveram o fascismo salazarista de modo inerte.

Assim, o autor foi extremamente coerente ao escolher personagens já velhos para fazer o tipo de reflexão proposta, que se atém não apenas a questões filosóficas do tipo “vida e morte”, mas também põe em xeque a realidade em toda sua crueza.
Ademais, transformar em personagem do livro a figura do “Esteves sem metafísica” do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, acaba por traduzir de modo geral como são todos os personagens do livro: homens comuns, os silvas (“somos todos silva neste país”), senhores já velhos que ponderam o passado. O autor não está preocupado em criar um enredo cheio de reviravoltas com personagens grandiosos, mas falar de vidas absolutamente banais. A máquina de fazer espanhóis nos lança pessoas que podem ser observadas do outro lado da rua, em frente a uma tabacaria – gente que pode estar a esvaziar ou transbordar de metafísica.

Nessa perspectiva, Valter Hugo Mãe explora temas antiquíssimos da humanidade e, consequentemente, da literatura. A velhice está em Rei Lear; a crise da constituição familiar, em Antígona; o amor, em Romeu e Julieta; a culpa, em Crime e castigo; a morte, em Fausto. Não obstante, o autor dá uma nova roupagem a isso. Insere velhos temas em um cenário comum da modernidade, guiando tudo com uma linguagem poética avassaladora. O escritor português consegue dar à palavra escrita a sonoridade da fala. A utilização de minúsculas em todas as partes do livro narradas em primeira pessoa (ou seja, em quase todo ele) não é desproposital: há um desejo de apreender a sintonia entre linguagem e pensamento. Valter Hugo Mãe herda, então, o estilo de literatura portuguesa produzida por José Saramago e António Lobo Antunes, onde o limite que a palavra impõe deve ser usado para aproximar ao máximo a forma do conteúdo, conseguindo ele dar continuidade e renovar com grande maestria essas tendências.

Pensar a literatura contemporânea significa colocar a obra literária produzida hoje em três momentos em relação ao tempo – passado, presente, futuro -, para concluir se, nesses termos, o diálogo que o texto cria garante a sua atemporalide e consequente permanência. A máquina de fazer espanhóis atende com muita qualidade a essas exigências, conseguindo impressionar o leitor pela sua qualidade artística e potencial estético e pela capacidade de, ao mesmo tempo, emocionar.

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