Sergio Y. vai à América (Alexandre Vidal Porto)

sergio y

Concordo com Milton Hatoum quando, em entrevistas, ele diz que o romance, por não precisar necessariamente ser tão conciso e preciso quanto um conto ou um poema, permite momentos de frouxidão. A meu ver, essa é uma modalidade de escrita que apresenta suas maiores dificuldades em dois pontos: o enredo e a coragem por parte do escritor. Partindo daí, pode-se entender Sergio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto, como uma obra especialmente encantadora.

Por ser um trabalho que investe bastante na trama, acredito que as impressões de leituras que apresentarei não devem ser lidas por quem ainda não entrou em contato com esse livro de Alexandre Vidal Porto. Leia o romance e depois volte aqui. Caso não queira, se aventure por essa pequena resenha crítica como preferir.

Narrado em primeira pessoa por um psiquiatra já solitário de 70 anos, o livro conta a história da relação entre esse médico e um de seus pacientes, Sergio Y. Primeiramente, acredito que fato de o autor ter optado pela narração em primeira pessoa foi muito importante para a constituição da história. Embora não haja sentimentalismo na forma de contar do narrador, Armando, o leitor fica extremamente envolvido com a história que está sendo apresentada. Na verdade, o estilo seco e direto do psiquiatra contribui para a fluidez da leitura, fato muito importante para o tipo de romance que está sendo construído, isto é, com um enredo cheio de revelações.

Nessa perspectiva, nos deparamos com um narrador extremamente egocêntrico e incrivelmente irônico, que se vê chocado quando descobre não ter conseguido observar um ponto tão importante no seu intrigante paciente Sergio Y: a transexualidade. Sergio, um rapaz jovem de uma família rica de São Paulo, chega até o psiquiatra com a queixa de que se sente infeliz. À primeira vista, somos acometidos por uma visão muito generalizada do tipo “Ora, por que ele se sente assim se tem uma vida tão ‘perfeita’?”. O próprio médico faz questão de lançar para nós isso e de desmontar esse ponto de vista ao longo da sua investigação acerca do que virá posteriormente a acontecer com Sergio Y.

A forma como Alexandre Vidal Porto escolheu para trabalhar esse tema tabu foi, a meu ver, primorosa. O autor fala sobre transexualidade com tanta naturalidade (nada mais que o normal assim tratar o assunto) que mal parece ser uma das principais questões da obra. Desse modo, o livro afirma sua atualidade não pela forma, mas pelo conteúdo: a transexualidade é um fato da modernidade e precisa, sim, ser discutida na produção literária contemporânea.

Além disso, há outros dois pontos que, embora compartilhem uma relação de causa e efeito, sustentam a obra: a questão da influência e a transformação. O primeiro pode ser observado em diversos momentos do livro, como a influência do livro de Angelus em Sergio, a influência do caso de Sergio em Armando, da cidade de Nova York em muitos dos personagens, e como podemos observar até nas epígrafes do livro: a influência de Walt Whitman em Fernando Pessoa. Ou seja, esse trabalho de Alexandre Vidal Porto fala, sobretudo, da relação do eu com o outro. Como vidas e objetos se cruzam e se confundem para formar o caminho de cada indivíduo.

A partir, então, da influência que um personagem sofre por parte de algo ou alguém, ele começa a passar por um processo de transformação. O caso mais explícito disso na obra é a transformação pela qual passa Sergio Y.: a mudança de sexo. Na minha opinião, a mudança mais interessante é a pela qual passa Armando ao descobrir que não soube analisar muito bem seu paciente e, a partir disso, começa a desconstruir a visão que tem de si próprio de grande médico, isto é, passa a diluir um pouco o egocentrismo e entender que ainda tem muito a aprender (e o próprio psiquiatra deixa isso bastante claro na sua narrativa). Um outro exemplo não tão evidente é o de como os pais de Sergio Y., Salomão e Tereza, passam por diversas metamorfoses no seu modo de ver o mundo a partir de três grandes acontecimentos: a morte do filho anencéfalo, a mudança de sexo de Sergio e, por fim, a morte do mais velho.

Desse modo, Alexandre Vidal Porto consegue, com um estilo direto que dispensa sentimentalismos baratos, fazer um panorama da relação que o ser humano cria, em estado de solidão, consigo próprio e, no mundo, com as experiências que passa com o outro; partindo dessas duas noções para falar sobre como passamos a compreender melhor a realidade a partir do próprio curso da vida e do tempo. Sergio Y. vai à América traduz um sentimento de união que descarta as fronteiras das crenças ou do sexo, algo necessário para os nossos dias. Um romance muito bem feito, uma leitura que merece ser feita.

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