A gente não aprende nada: entrevista com Alice Sant’Anna

alice santanna

Há algum tempo, entrei em contato com a poeta contemporânea Alice Sant’Anna perguntando se ela gostaria/poderia ceder uma entrevista para este blog. A escritora respondeu de modo muito solícito e positivo. Eis o resultado desse encontro:

Lombada Quebrada: Certa vez, em entrevista, Ferreira Gullar disse que “a arte existe porque a vida não basta”. Você concorda com a opinião dele? Ou sua poesia, por ter como tema principal a vida cotidiana, seria uma reafirmação das asperezas as quais estamos submetidos? Como você reage a essa afirmação de Gullar?

Alice Sant’Anna: Difícil dizer. Não vejo muita separação entre uma coisa e outra. A gente escreve não porque aprendeu alguma coisa sobre a vida, nem vive porque aprendeu alguma coisa sobre o que leu ou escreveu. A gente não aprende nada. Mas acho que escrever ajuda (a palavra não é bem essa…) a compreender algumas situações, seja de tristeza, de descoberta, de alegria, de monotonia. Um pouco como se, escrevendo, a gente estivesse tentando entender, ou pelo menos pontuar, alguma coisa que está vivendo?

LQ: Embora tão nova, você já se apresenta como um expoente da poesia atual, tendo sido sua obra indicada por Armando Freitas Filho e Heloísa Buarque de Hollanda, mestres no quesito de literatura. Como foi chegar até eles? Essa relação entre vocês, que vai além apenas da literatura, se deu de que maneira?

AS: Ah, muito obrigada. Pra mim foi muito importante. Já era fã de carteirinha do Armando e da Helô antes de conhecê-los pessoalmente (dele, pela poesia, dela, pelo 26 poetas hoje).
Conheci o Armando aos 15. Ele é amigo de um grande amigo do meu pai, o Alfredo Ribeiro. Levei os poemas numa pastinha, um mico total. Hoje em dia não teria coragem de fazer isso, ainda bem! A Heloisa foi um pouquinho depois, na época da exposição do Oi Futuro, Blooks, que ela organizou com o Omar Salomão e a Bruna Beber.

LQ: Você comentou que o livro Rabo de baleia surgiu principalmente da vontade de viajar. Então, você acha que esse livro aborda uma transição (ou transgressão) no tema que rege o seu texto: o cotidiano?

AS: Falar em cotidiano é falar sobre tudo, sobre qualquer coisa, né? Falar sobre sentimentos nobres, elevados, isso também é falar sobre o que passa no nosso dia a dia: tédio, pasmaceira, cansaço, ansiedade. Até uma situação limite, de ruptura, entra. O cotidiano é feito disso também (ou principalmente disso).

LQ: Uma pergunta um tanto quanto clichê, porém que não posso deixar de fazer é: quais são suas expectativas com relação à literatura produzida atualmente, tanto no Brasil como fora dele? Você acha que as editoras tem deixado a poesia cada vez mais de lado?

AS: Não, pelo contrário, acho que o momento é ótimo. Muita gente boa (excelente, mesmo) escrevendo, e novas maneiras de lançar, editoras pequenas (e grandes também) dispostas a receber originais, livros impressos com tiragens curtas, sob demanda, mil caminhos ainda a serem descobertos para publicar na internet.

LQ: Você já deixou claro que tem influências de Ana Cristina Cesar, dizendo em várias entrevistas que começou a gostar de poesia quando se deparou com a obra da poeta carioca. No entanto, quais outros estilos você gosta? Poderia contar um pouco sobre a sua relação com a literatura como leitora?

AS: A Ana C. foi o primeiro impacto. Além dela, li muito Sylvia Plath, Emily Dickinson, Adília Lopes, e os poetas brasileiros contemporâneos, Armando Freitas Filho, Ferreira Gullar, Chacal, Paulo Henriques Britto. E os da minha idade, que admiro à beça. Gosto muito de ler ficção também. Leio mais romances do que livros de poesia.

LQ: Falando novamente de Ana Cristina Cesar… Ela comentou, numa conferência para a PUC, que escrita feminina não necessariamente era feita por mulher (usando como exemplo o Guimarães Rosa). Qual sua opinião sobre esse tema? Você acha que há diferença entre o texto feminino e o texto masculino?

AS: Essa é uma discussão que vai longe. Talvez a mulher e o homem escrevam de modo diferente, sim, tenham assuntos diferentes. Mas a separação só é sublinhada na hora de falar da minoria, da exceção. Ninguém fala em “literatura masculina”.

LQ: Em uma entrevista para o programa Agenda, de Minas, você comenta que o seu primeiro livro, Dobradura, foi chamado por muitos de “fofo”. Assim, surge uma questão: você tem alguma proposta específica para sua poesia?

AS: Não tenho proposta e nem acho ruim que digam que é fofo ou que não é. Faz parte, quando se lança livro tão cedo… Já fico bem contente de saber que estão lendo, é isso que importa, na verdade.

LQ: A internet tem sido um meio de difusão da literatura. Cada vez mais, vlogs e blogs literários vão ganhando espaço nesse universo virtual. Seu processo de “iniciação literária” (digamos assim) começou por aí também. Então, você acha que o meio da internet tem cada vez mais seu papel incentivador?

AS: Sim, a internet me ajudou muito, antes de publicar em livro, tanto para organizar o que eu andava escrevendo no blog quanto para conhecer a produção de outros poetas. A primeira parte eu deixei de lado, quase não posto mais o que escrevo, mas a segunda continua firme e forte. Acho que ainda temos muito a explorar, se pensarmos que na internet ninguém depende de distribuição, de venda, de editoras, das formas tradicionais do livro físico.

LQ: Temos, na literatura, várias escolas literárias, que, futuramente, vão sendo caracterizadas pelos professores. Você acha que nós estamos caindo num estilo próprio desta época? Qual sua visão sobre o futuro do texto (principalmente da poesia) no Brasil?

AS: É complicado fazer esse raio-x agora, de dentro. O que dá para perceber são algumas características em comum: o humor, a oralidade, o verso livre. Se bem que nem isso é fechado. Dois grandes ídolos, Paulo Britto e Fabrício Corsaletti, seguem a métrica. Então já me desdisse, não dá pra arriscar o que é próprio desta época. Talvez daqui a um tempo fique mais fácil de ver.

LQ: Por fim, qual é sua dica para os novos poetas?

AS: Não tenho conselho pra dar, prefiro receber. Mas acho que uma coisa que foi e é bem importante pra mim é ler o que outros poetas estão escrevendo agora. Trocar ideia, mostrar os poemas, aprender a ouvir críticas, que talvez seja a parte mais difícil.

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